17 de nov de 2009

No tempo das cavernas

genero mulher discriminação Geisy Arruda


 imagem/www.jacarebanguela.com.br

Bonita e sensual, ela caminhava com sua minissaia e uma blusa tomara-que-caia pela Praça do Ferreira. De repente, uma multidão de homens e mulheres de várias idades começou a xingá-la de prostituta, desavergonhada, assanhada. As vaias se multiplicavam a cada passo que dava. Ela não entendia bem o que acontecia a sua volta. Tudo começara com assobios e ela até se envaidecera. Afinal, a moda da minissaia, inventada por uma inglesa chamada Mary Quant nos
anos 60, já era bastante usada no Rio de Janeiro, de onde viera em férias a Fortaleza. A blusa tomara que caia era um modelo comum nos vestidos do séc. XIX e sempre alimentara a vaidade feminina. O que estava acontecendo com o povo dessa cidade? Parecia história do tempo das cavernas... Acossada pela multidão, a jovem apressou o passo em direção ao cine São Luis, que estava fechado na hora, e buscou guarida na Loja Flama. Lá foi protegida pelo Cosme & Damião, dupla de policiais que faziam ronda na época. Essa história me foi contada por uma amiga que assistiu a cena horrorizada com o comportamento retrógrado dos passantes da Praça do Ferreira, em 1961.

Quase meio século depois, no país da liberalidade, da praia e do carnaval, a cena se repete, desta vez numa universidade. A estudante de turismo Geisy Arruda, foi brutalmente hostilizada por alunos da Uniban, em São Paulo, no dia 22/10/09, por ter usado um vestido curto e provocante. Precisou de proteção da polícia para deixar o prédio, aos prantos.

Não foi à toa que o Brasil caiu nove posições no ranking de igualdade de gênero, divulgado em 28/10/09, pelo Fórum Econômico Mundial. O país ocupa agora a 82ª colocação. O resultado se explica por fatos como esses. São cenas explícitas de desrespeito e violência contra a mulher.

Nilze Costa e Silva - Escritora
nilzecosta@terra.com.br
* artigo publicado em 17 Nov 2009 no jornal O Povo

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