A origem do Celibato Sacerdotal

por: *Antônio Alfredo Coelho Beviláqua

Antes de tudo, vale dizer que o celibato na Igreja Católica teve origem nos Apóstolos que o receberam de Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, não é verdade que a Igreja teria inventado o celibato eclesiástico, mas sim, foi o próprio Jesus Cristo quem deu o grande conselho evangélico da castidade perfeita, exortando os seus discípulos ao celibato e a tudo deixar pelo amor do Reino dos Céus como estado de perfeição. Mas Ele avisou: "Nem todos são capazes desta resolução, mas somente aqueles a quem isto foi dado". (Mat 19, 11-12). O Evangelho fala na sogra de Pedro, mas não se refere à sua esposa, como também sobre a esposa de nenhum dos outros Apóstolos, deduzindo-se que eram celibatários, sendo Pedro viúvo. Para comprovar esta tese, observemos a interpelação de Pedro a Jesus, falando por ele e pelos seus companheiros de apostolado: “Eis que deixamos tudo e te seguimos”. Respondeu-lhe Jesus: “Em verdade vos digo, ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de mim e por causa do Evangelho, que não receba já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mãe, filhos e terras, com perseguições e no século vindouro a vida eterna” (Mc 10, 28-31). Pois bem, alicerçado e exaltado nas Sagradas Escrituras, o celibato voluntário começou a ser fielmente praticado por toda a parte na medida em que o Cristianismo ia se difundindo. Este entendimento permaneceu na tradição da Igreja, sem nenhuma obrigação por norma legal, mas por opção de servir e seguir somente a Deus e não olhar atrás.

Com o passar do tempo, houve a necessidade de uma normatização e assim, no Século IV, a Igreja criou a lei do celibato existente para os bispos, sacerdotes e os diáconos, no Concílio de Elvira, entre os anos 300 e 305, que expressa no cânon 33: "Determinou-se unanimemente estabelecer a proibição de que os bispos, os sacerdotes e os diáconos, isto é, todos os clérigos constituídos no ministério, se abstenham de esposas, e não gerem filhos: e, aquele que o tenha feito seja declarado decaído da honra da clericatura". Santo Agostinho comentando o Concílio de Elvira acrescenta: "O que a Igreja Universal mantém e não foi instituído por Concílios, mas o que sempre se observou, crê-se ter sido transmitido, sem nenhum perigo de erro, pela autoridade apostólica."

A partir do século X, houve uma grande decadência do clero, exatamente quando o imperador Oto I, do Sacro Império Romano Germânico, em troca da proteção que dava à Igreja, começou a querer controlar os assuntos de religião e as ações do Papa, promovendo uma liberação no celibato, com nomeações ou investiduras de bispos casados os quais ordenavam padres casados de acordo com as conveniências políticas, abrindo as portas para a corrupção entre os membros do clero com escândalos e concubinato por toda a parte, favorecido pelo caso das investiduras, já que o poder secular tinha em suas mãos quase todas as nomeações de bispos e curas. Era preciso arrancar estas ervas daninhas que transformavam a Sementeira do Senhor, a Igreja, em um campo minado de corrupção e de indisciplina, usando o tráfico ou venda ilícita de coisas sagradas, manchando a conduta da Igreja e prejudicando a sua missão evangelizadora com muitos escândalos envolvendo os príncipes seculares, os quais como lobos famintos, invadiam o aprisco do Senhor. Os reis Filipe e Augusto I da França, Boleslau II da Polônia praticavam e difundiam a devassidão e a imoralidade, destacando-se Henrique IV do Império Romano Germânico como o mais devasso de todos. Diante de tanta corrupção e indisciplina, a Igreja rezava pedindo ao Divino Espírito Santo que lhe mostrasse o caminho da libertação, capaz de restaurar a sua missão evangelizadora. Deus ouviu o clamor de seus fiéis e se apiedou de sua Igreja, dando-lhe um Papa, como as circunstâncias o exigiam, na pessoa de Dom Hildebrando Brandeschi OSB que assumiu a suprema dignidade papal, com o título Gregório VII. Ao receber essa notícia, São Pedro Damião, Bispo e Doutor da Igreja, exclamou: "Agora será calcada a cabeça da serpente peçonhenta, e será posto um termo aos negócios torpes; o falsário Simeão Mago não mais cunhará moedas na Igreja; voltará ao tempo áureo dos Apóstolos, revigorará a disciplina eclesiástica; serão derrubadas as mesas dos vendilhões..." “Não fosse a Igreja uma instituição divina, edificada sobre a rocha, os próprios filhos tê-la-iam destruído”. Nestas circunstâncias, no ano de 1073, o Santo Padre, o papa Gregório VII, convocou o Concílio Lateranense, deliberando por proibir e tornar sem efeito todas as investiduras religiosas exercidas pelos imperadores e excomungar o imperador Henrique IV do Império Romano Germânico com todo o seu clero rebelde formado de bispos e padres casados, os quais foram todos afastados da Igreja e proibidos de ministrarem os Santos Sacramentos.

“O Concílio de Trento reforçou a nulidade destes casamentos e criou os seminários, escolas de meninos para serem uma perpétua sementeira de ministros para o serviço de Deus. E responde que Deus não recusa o dom da castidade àqueles que o pedirem, como também não permite que sejamos tentados acima de nossas forças. Além do mais, a celebração cotidiana do Santo Sacrifício da Missa e a recitação diária do Ofício Divino, a freqüente meditação das verdades eternas, as consolações do apostolado, o contínuo contacto com os enfermos e moribundos... tudo isso auxilia amplamente o sacerdote na fidelidade aos seus votos”. A Igreja é coerente e fiel no cumprimento da missão que lhe foi confiada, em obediência à ordem recebida de Jesus: “Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho” e sempre atenta à Palavra de Deus. Vejamos o que nos diz o Senhor Jesus: “Aquele que põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62). Por isso, adota o celibato, em zelo pelo Evangelho e pelo sacerdócio, deliberando que os padres não devem constituir família, para que eles em se preocupando com o bem-estar da esposa e dos filhos se descuidem das demais ovelhas do rebanho, como também fiquem impedidos de possíveis remanejamentos para anunciar o Evangelho em lugares distantes. Disse Jesus em uma passagem do Evangelho: “As aves têm ninhos e as raposas têm as suas tocas, mas o Filho do Homem não tem um lugar aonde repousar”.

Muitos jovens entram no seminário, mas só serão ordenados padres se realmente tiverem vocação para o sacerdócio e assumirem votos de pobreza, castidade e obediência, aceitando as normas disciplinares na hierarquia da Igreja, tendo todo o tempo de Seminário para decidirem, pois ser padre é um sacerdócio que requer sacrifícios. Também, qualquer pessoa de boa vontade poderá observar que a Igreja é isenta de paixões políticas, pois defende que não deve misturar a missão evangelizadora com a arte de fazer política,
recomendando aos padres que não se envolvam em cargos eletivos, limitando-se a orientar os seus fiéis ao voto consciente.

Vejamos o que nos diz o Papa Pio XII em sua Encíclica "Menti Nostrae": "É precisamente porque ele deve ser livre de todas as preocupações profanas e consagrar-se totalmente ao serviço de Deus, que a Igreja estabeleceu a lei do celibato, a fim de que seja sempre mais manifesto a todos que o Sacerdote é ministro de Deus e pai das almas". "Por esta obrigação do celibato, muito longe de perder inteiramente o privilégio da paternidade, o sacerdote o aumenta ao infinito, porque, embora não suscite posteridade nesta vida terrestre e passageira, engendra uma outra para a vida celeste e eterna". Outrossim, neste mundo degradado e imoral, no qual a sensualidade e a devassidão dominam tudo, é mais do que oportuno mostrar o heroísmo do celibato eclesiástico em toda a sua pureza, para servir de barreira e como exemplo, ao invés de tentar atenuá-lo e ofuscar-lhe o brilho. Analisando os fatos históricos, observa-se que as idéias liberais tentando influenciar o Clero, com o fim de derrubar o celibato, só trouxeram problemas para a Igreja, na sua missão evangelizadora. Portanto, é salutar que se mantenha o celibato e que se incentive o Sacerdote na sua missão de servir e seguir somente a Deus e não olhar atrás.

*Leigo Católico

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